Revista Continente

quarta-feira, 30 de julho de 2014

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#163

Julho/2014

PROCESSOS CRIATIVOS

Inerente à trajetória humana, a criatividade não é exclusiva do ambiente artístico, embora seja nele que reconheçamos sua evidência.

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As cartas de Arthur Rimbaud

Sex, 01 de Outubro de 2004 00:01
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Por Ivo Barroso



Um dos maiores enigmas da literatura mundial diz respeito às razões que levaram Rimbaud ao silêncio poético, depois de ter atingido as culminâncias do verso em sua busca pelo Insabido. Entre as hipóteses mais prováveis, está a que explica esse abandono como sendo a autoconsciência do poeta, ao reconhecer que atingira o ápice e, não podendo ir além, ficaria confinado a um processo repetitivo que de todo abominava. Outra especulação vê, nesse transe, o fenômeno de uma dupla personalidade: um Rimbaud poeta e sonhador, até os 20 anos; e outro Rimbaud, viajante-aventureiro, o homem prático em oposição ao primeiro, e que iria morrer aos 37 anos, com a perna amputada, num hospital de Marselha.



O caso dessa oposição (poeta sonhador versus aventureiro e homem prático) fica mais evidente quando – depois de passar pelos seus poemas, em que o menino de Charleville se auto-supera de verso para verso até chegar às culminâncias das Iluminações – chegamos à leitura de suas “cartas africanas”, totalmente destituídas de qualquer veleidade poética. Rimbaud escreve aos seus – a mãe Vitalie, a irmã Isabelle e o irmão Frédéric –, chamando-os sempre de Chers amis (Caros amigos), e o teor dessas cartas, escritas às pressas para aproveitar o correio marítimo irregular e impiedosamente lento, relata apenas as agruras de uma vida insípida num clima insuportável, às voltas com um trabalho exasperante.
Em dezembro de 1878, está empregado com a firma francesa E. Jean & Thial fils, em Chipre: “Tudo o que existe aqui é um caos de rochas, o riacho e o mar. Uma casa apenas. Nada de campos, nem jardins, nem árvores. No verão, o calor chega a 80 graus. Temos 50 quase sempre. É inverno. Chuva, às vezes. Alimentamo-nos de caça, de aves etc”. Rimbaud bebe água salobra e contrai tifo. Tem que regressar à França, para se tratar em casa dos “caros amigos”. Visitado nessa época pelo sempre fiel Delahaye, que lhe faz perguntas sobre literatura, responde: “Nem penso mais nisto”.



Na primavera, retorna a Chipre. Em fins de 1881, envia à mãe todas as suas economias e pede-lhe que as coloque a juros, pois pretende usufruir, mais tarde, desse dinheiro: “Quanto a mim, arrependo-me de não ser casado, de não ter família. De que servem todas estas idas e vindas, todas essas fadigas e aventuras em meio a raças estranhas, e essas línguas de que se tem de atulhar a memória, e a trabalheira insana, se não puder um dia, daqui a alguns anos, descansar num lugar que me apraza um pouco e ter mulher e um filho, ao menos, a quem dedique o resto de minha vida a educá-lo, de acordo com minhas idéias, a dotá-lo e armá-lo da mais completa instrução que houver à época, e a quem antevejo tornando-se um engenheiro de nome, poderoso rico em função da ciência? Mas, quem sabe quanto poderão durar meus dias, aqui, nestas montanhas? E posso desaparecer no meio dessas tribos, sem que haja sequer a notícia que morri”.



Mas a frustração será grande. A mãe, proprietária rural, só entende o significado de riqueza em termos fundiários. Compra mais terra com o dinheiro do filho que nunca chegará a concretizar seu ideal de pai educador para as coisas práticas da vida. Em conseqüência de uma queda de cavalo, fere gravemente o joelho, e a falta de tratamento degenera o ferimento em “tumor senovítico”, com a conseqüente amputação da perna. Rimbaud morre no hospital de Marselha, visitado rapidamente pela mãe que tem de ir cuidar de seus trabalhos agrícolas. Deixa a filha, Isabelle, para assistir a prevista morte do irmão.
A carta que Isabelle envia à mãe, relatando a morte de Arthur, é pungente, mas demonstra o permanente interesse pecuniário da mãe: “Não conte absolutamente com o dinheiro dele. Após a morte e o pagamento das despesas e viagens, é provável que seus bens passem a outros, e estou inteiramente decidida a respeitar sua vontade”.



Essas cartas de Rimbaud aos seus familiares não parecem escritas por alguém que levou a linguagem poética ao seu ponto mais elevado; são pedestres, monótonas, práticas, sempre pedindo livros técnicos e implementos mecânicos, entre os quais uma máquina fotográfica, com a qual se auto-retratou, deixando para a posteridade um “Rimbaud negro”, andrajoso, sombra do “insigne passante” que foi em seus tempos de poeta. Contudo, trata-se de leitura esclarecedora, que revela a outra face desse gênio, sem a qual a figura estaria incompleta.



(Leia mais na edição 46 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas.)
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