Cinema |
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Os amores e dores da casa de tolerância |
| Escrito por Gabriela Alcântara | |||
| Sex, 10 de Fevereiro de 2012 13:34 | |||
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Falar de prostitutas e bordeis pode resultar em uma obra tão poética quanto espinhosa. A naturalidade com que trata dos dois temas, e dos infinitos universos que neles se encontram, é o grande trunfo de L’Apollonide – Os amores da casa de tolerância, do diretor Bertrand Bonello (O Pornógrafo), que estreia nesta sexta-feira (27) no Cinema da Fundação. Talvez por estar habituado a representar a sexualidade – em Tiresia, por exemplo, o diretor explora a mitologia grega do ser que é, em um só tempo, homem e mulher, a partir da transexual brasileira que tem o mesmo nome do filme –, Bonello caminha com naturalidade pela casa da luz vermelha. No bordel, os sonhos e pesadelos das damas da noite se misturam às fantasias dos clientes, com resultados ora encantadores, ora extremamente dolorosos.
Praticamente enclausuradas na casa onde trabalham, as prostitutas de Bonello parecem, à primeira vista, pequenos bibelôs de olhos tristes, que encaram todos os dias o peso de terem escolhido essa vida (sim, pois a maior parte delas foi parar ali por escolha própria). Essa aparente limitação do cenário é perfeita, já que traz consigo a força das limitações impostas a essas mulheres, além de abrir os olhos do espectador para todos os detalhes presentes nas cenas. Da pétala de rosa que cai, simbolizando a decadência do bordel, ao pavão que decora a sala, todos os elementos dialogam entre si, aumentando a sensação de veracidade.
Com uma banda sonora extremamente forte, que pontua bem as passagens, L’Apollonide retrata o momento final do “glamour” dos prostíbulos pela França, na virada do século 19 para o 20. As músicas vão da triste Nights in white setin, do Moody Blues, em uma das cenas mais bonitas da obra, à agitada Bad girls, entoada por Lee Moses, passando pelos clássicos instrumentais. O resultado é uma aura sedutora, que faz juz à intenção narrativa do diretor.
Apesar de sensível, Bonello não teme expor a violência ao espectador, que a encontra na personagem mais marcante do longa, Madeleine. Interpretada por Alice Barnole, a “judia” (como inicialmente é chamada) é romântica e esperançosa, mas, ao realizar a cruel fantasia de um cliente, acaba tendo seu rosto mutilado, e transforma-se na “mulher que ri”, numa provável alusão ao romance O homem que ri, de Victor Hugo. De uma das mais exóticas belezas da casa de Madame Marie-France, Madeleine torna-se objeto de curiosidade e fetiches que beiram à crueldade. A personagem, então, passa a ficar em seu quarto, enquanto as colegas estão com os clientes.
Mesmo sendo um elemento importante e claro no filme, o lado sombrio da prostituição não é o único tom do longa, que traz também a adoração que cerca as moças. Seja no personagem interpretado pelo diretor Jacques Nolot ou no pintor Gustave, fica claro a devoção e o amor que os clientes sentem por elas. A obra é, na verdade, não só uma reflexão, mas, principalmente, uma homenagem às prostitutas e ao fascínio que provocam em homens e mulheres.
Dolorosamente belo, o longa de Bonello é incrivelmente sedutor dentro de sua previsibilidade. E não haveria como não ser previsível, tratando-se de um tema tão recorrente. O certo é que esta é uma obra tocante, que demonstra com sobriedade, mas nem por isso sem romantismo, pequenos retratos dessas personagens, que estão presentes em toda e qualquer sociedade. Em um dos diálogos mais bonitos e tristes do filme, uma delas explica o maravilhamento do filme questionando: “Se nós não queimarmos mais, como se iluminará a noite?”.
Confira abaixo o trailer
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