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Maio/2012

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"Aspira" se revela: André Ramiro estreia bem no rap

Escrito por Thiago Lins   
Qui, 09 de Fevereiro de 2012 14:26

 

O Aspira de Tropa de elite troca as armas pelo mike – e se dá bem

 

Talvez o MC André Ramiro não seja tão durão quanto Mathias, o incorruptível aspirante a oficial de Tropa de elite. Talvez, ainda, a crítica não devesse subestimar os atores-cantores, como se desempenhar um papel comprometesse outro, e vice-versa. A síndrome de Dado Dolabella não deve ser extensiva a seus colegas menos cretinos – ou mais talentosos, como Ramiro.

 

Se arriscando em seu primeiro CD, Crônicas de um rimador, o ator faz bonito. Não tou aqui pra cantar porcaria/ganhar dinheiro sim, mas sem perder a ideologia, brada em Não foi à toa, a faixa de abertura que condensa boa parcela dos elementos do (sub)mundo de qualquer rapper: ralação, família (ou simplesmente “a coroa” dado o alto índice de omissão paterna no Brasil, um traço quase cultural, que chega a exceder as barreiras das classes sociais) e se dar bem e ainda assim seguir “na humildade”.

 

Sublinhando: nem todo clichê pode ser dispensado, e os mencionados acima fazem parte da cartilha de todo MC que se preze, do veterano doidão Marcelo D2 ao promissor e careta (o itálico é porque, hoje em dia, ser careta já não é tão careta assim) Emicida. O segundo, aliás, travou uma batalha antológica com André Ramiro (vulgo Brigante, à época), numa final em 2007, que merece um parágrafo à parte.

 

Hoje um semiclássico do Big Y, o evento já somou quase 500 mil views, com tiradas inspiradas dos dois. Neguinho veio de São Paulo e a cara partiu/ Acho que ele é eleitor do Clodovil (…) Aqui é Rio de Janeiro/ É melhor vazar, parceiro/ Tu chegou com fogo baixo/ Na moral, tu é cabaço provocava Ramiro, de um lado do ringue. De outro, Emicida, o magrelo que no verbo derruba até Anderson Silva.

 

Sou Emicida e vim acabar com sua vida/ A sua rima caiu e nem você ouviu/ Vou te deixar só olhando e pensando porque tou aqui rimando, respondeu Emicida, à altura, emendando com seu grand finale: O Emicida vai mais longe que a Nasa/ Ramiro pensa: Pô, porque não fiquei em casa?. A decisão não foi unânime – nunca será, Aspira. Mas aquele tal de Brigante venceu. Dois anos depois, Emicida bombaria com a mixtape Pra quem mordeu um cachorro por comida até que eu já fui longe, o melhor disco de rap nacional em anos.

 

Ramiro levaria outros cinco até lançar seu CD, sem fazer muito barulho (a menos que o page rank esteja bugado, essa é a primeira matéria de fato sobre a bolachinha). Mas, como já dizia D2 com seus neurônios tão sagazes quanto queimados, é assim que é porque é assim que tem que ser: rap não é ciência exata, é flow. E flow é a gíria da rua para nada menos do que aquilo que as academias ortodoxas podem chamar de jazz verbal.

 

Conceitos à parte, André Ramiro vem somar numa geração que já estava bem representada. Além dos incensados Emicida e Criolo, tem muita gente boa rimando por aí: Rashid, Projota (velhos parceiros de Emicida, que mais recentemente gravaram, todos juntos, o single Nova ordem – outro a vencer a corrida do milhão de plays no Youtube), Renegado, Kamau...

 

Crônicas de um rimador, o disco, é um apanhado de boas letras, sustentadas por bases idem, mérito da produção de Damien Seth. Além de abrir com a certeira Não foi à toa, que contém mais versos dignos de menção, como o seguinte: Deus está comigo, por isso não tenho medo/ Se me jogar na cova do leão saio ileso, Ramiro segura a onda nas outras faixas, todas recheadas de pérolas. Querem me tirar das ruas para o gringo não me ver/ Mas até o presidente já assistiu meu DVD, manda em José Camelô, que retrata a vida dura de um vendedor de Cds piratas.

 

Ao contrário de seu personagem-marco, André Ramiro não deve cunhar bordões no imaginário brasileiro – mas o Aspira não vai pedir pra sair em nenhuma batalha de MCs.

 
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