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A partir de agora você vai dedicar um tempo para ler esse texto. Algo em torno de uns 15 minutos desses corridos no seu relógio de pulso ou no analógico do computador. Enquanto você se entrega à leitura, porém, não é apenas entre os ponteiros que o tempo corre. Ao final deste quarto de hora, você estará impercepetíveis 15 minutos mais velho. Foi assim, sem se dar conta, que uma turma de artistas nascidos em 1951 se percebeu chegando aos sessenta anos. E notou, também, que as mudanças que “acontecem silenciosas na soma dos dias ao longo de uma vida inteira” podem render boas histórias.
Organizados por Ivana Arruda Leite – sessentona doidivana que também escreveu sua contribuição –, Arrigo Barnabé; Chacal; Cida Moreira; Eliete Negreiros; Glauco Mattoso; José Castello; Laerte; Maria Helena Weber; Maria Rita Kehl; Paloma Amado; Paulo Henriques Britto e Washington Olivetto refletiram suas almas sensíveis e dilatadas em uma antologia que faz ode ao tempo: 60tão. Imprimiram ali todas as suas angústias – dentre elas, a morte que se anuncia entre os queridos e se insinua para um breve que pode ser composto por anos, meses ou dias. Revelaram, também, a liberdade que só o tempo, ensinando a calma, pode oferecer.
Entre poemas, crônicas, contos e imagens, o que mais chama atenção na obra é o inusitado de uma coletânea geracional. Pois o que nasceu despretensioso – afinal, a própria Ivana afirma, “o redondo da data é apenas uma brincadeira” – é feito por gente que viveu o mesmo tempo, e, de maneira melancólica ou divertida, sabe o que isso significa no tempo que resta. Gente que é bem diferente da avó fazendo tricô ou do avô jogando xadrez que permeiam nossa ideia de velhice. Gente ativa, dinâmica, mutável. Mas gente que, ao menos fisiologicamente, está adentrando na terceira idade – a última – e isto vai muito além de pagar meia passagem no ônibus e ter prioridade em filas de bancos ou supermercado.
Daí Eliete Negreiros resgatar uma música de Nelson Cavaquinho, cantarolando na memória “Sei que estou no último degrau da vida, meu amor”. Ou então lembrar a efemeridade nos versos de Capinan, ecoando Heráclito “O tempo é como o rio /Onde banhei o cabelo de minha amada/ Água limpa que não volta/ Como não volta aquela antiga madrugada”. Por isso, também, Glauco Mattoso, com sua irreverência e acidez de costume, trazer a ideia do fim próximo por meio da sexualidade: “Perguntam-me si, perto dos sessenta/ na cama a gente já a broxar começa/ Respondo que a piroca ainda aguenta/ mas, quando acaba, nunca recomeça”.
Contudo, vem desse mesmo primeiro passo na velhice a brandura para lidar com o fim a beijar o rosto. A leveza se mostra em Laerte, ao retratar, em uma das mais tocantes obras do livro, um quadrinho em que conversa com o filho, morto em um acidente. “A morte não muda nada”, diz o garoto. “Eu dei umas mudadas quando você morreu”, retruca Laerte. “Isso é bom”, responde de pronto o menino. Do mesmo modo, depois de refletir sobre o tempo e sua finitude, Paloma Amado conclui: “Às vésperas do meus sessenta anos, me sinto cheia de alegria por estar caminhando para a manhã que se anuncia, caminhando para meu Tempo, em paz”.
Com a velhice, nasce, ainda, a possibilidade de ser livre naquilo que em que se sente prazer. Seja o silêncio, como lembra José Castello ao contar a história de um homem que ao fazer setenta anos decidiu não pronunciar mais nada: “Por que falar se é tão melhor ouvir?”; seja na palavra, como fala Paulo Henrique Britto: “Até aqui a corda não rompeu/ os ossos aguentaram, e a cabeça/ até que em definitivo anoiteça/ e tudo se resolva enfim em breu/ a cabeça vai tocando, fazendo/ a transubstanciação de coisa em texto/ que é seu único métier. De resto/ prossegue cozinhando em fogo lento/ essa tão adiada refeição/ a que ela sequer será convidada”.
E quando não se pensa no futuro e sua única certeza, se volta para o passado e suas lembranças. Como Ivana, que rememora, com seu típico bom humor, o cheiro do Rastro, perfume famoso na década de 1960, essência de uma desilusão amorosa. Ou a própria Eliete que recorda a vez em que as rugas de uma pessoa, denunciando sua longa história, a fizeram, ainda na infância, ter um calafrio. O tempo não poupa ninguém e quando se lê 60tão a consciência de sua passagem nos atinge como se estivéssimos olhando para uma ampulheta. Ao final do livro, só se pode chegar ao mesmo desejo de Eliete, que invoca uma antiga oração indiana: "que o passado seja amável, e o futuro benigno". Assim seja.
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